OPINIÃO – Por que a economia parece tão frágil

Por Martin Wolf – Valor Econômico

10/01/2019 – 05:00

Deveríamos nos preocupar com a situação da economia mundial? Sim – sempre faz sentido se preocupar. Isso não quer dizer que alguma coisa vai dar muito errado no futuro próximo. Ao contrário, a economia mundial parece se encaminhar apenas para uma desaceleração cíclica branda. Muito mais importante é o contexto desfavorável estrutural e cíclico de mais longo prazo, porque ele torna qualquer oscilação de curto prazo muito mais perigosa.

De acordo com o Goldman Sachs, o ímpeto de crescimento da economia mundial desacelerou acentuadamente em 2018. O desaquecimento mais significativo foi o que ocorreu com a economia chinesa – a principal locomotiva do crescimento mundial desde a crise financeira de 2007-2008. Mas a Alemanha e o Japão também registraram contrações econômicas no terceiro trimestre do ano passado. Além disso, as bolsas estão em turbulência. Em parte, isso reflete, aparentemente, a deterioração das percepções sobre as perspectivas. Essas bolsas em queda também deverão enfraquecer o consumo e o investimento.

Tudo isso sugere que uma desaceleração cíclica está em curso. Não se pode dizer que os especialistas convencionais em previsões estejam preocupados sem motivo. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirmou em novembro que “a expansão mundial alcançou seu pico” e que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, segundo as projeções, deverá “diminuir gradualmente a partir dos 3,7% de 2018 para cerca de 3,5% em 2019 e 2020, em grande medida em consonância com o crescimento da produção mundial potencial estrutural”. Se se confirmar, esse será um pouso ultrassuave. As previsões de consenso respaldam isto: as previsões de consenso de dezembro do crescimento em 2019 pouco se diferenciam das divulgadas um ano atrás. As perspectivas de crescimento para os Estados Unidos estão até ligeiramente melhoradas.

A preocupação deve se centrar no contexto em que essa desaceleração poderá ocorrer. É a instabilidade política e o esgotamento de alternativas seguras de expansão do crédito que tornará a gestão de uma desaceleração de curto prazo potencialmente espinhosa Uma desaceleração branda da economia dificilmente será problemática. Ao contrário, é de se esperar. Nas economias de alta renda, que ainda geram 60% da produção mundial (a preços de mercado), a expansão cíclica é velha, e a capacidade excedente caiu acentuadamente. Onde a expansão está mais avançada e a capacidade excedente desapareceu, a política monetária sofreu o devido aperto, de maneira bem apropriada, ao ritmo Donald Trump. Felizmente a inflação ainda está dominada e as taxas nominais e reais de juros estão baixas. Embora os mercados de capitais tenham de fato sofrido correção, as ações americanas raramente estiveram com avaliação tão elevada quanto agora.

Nada, nesse quadro, sugere que uma recessão mundial grave esteja em curso. Na verdade, é bom lembrar que, embora as economias capitalistas sempre tenham sido cíclicas, as recessões graves, principalmente as mundiais, são raras. Será prudente, em suma, que todos “mantenham a calma e continuem em frente”.

Mas há uma armadilha – e das grandes. Como argumenta Ray Dalio, da gestora de ativos Bridgewater, em nota sobre o que está acontecendo, o ciclo de curto prazo é o menor dos desafios. Há também as mudanças estruturais, que ele resume em termos de tendências de diferenciais de produtividade e o ciclo de endividamento de longo prazo. Criticamente, esses desdobramentos fragilizaram a economia mundial.

“Produtividade” deveria ser encarada como uma forma abreviada para resumir as mudanças do poder econômico mundial, a expansão cada vez maior da desigualdade, o colapso do nível de emprego na produção industrial, o advento da economia digital e os “excessos de poupança” das últimas décadas. O ciclo de endividamento de longo prazo, que se acelerou a partir da década de 1980, foi, entre outras coisas, uma maneira de administrar as consequências sociais e econômicas dessas mudanças estruturais.

Essas mudanças tiveram grandes efeitos políticos: a escalada do nacionalismo e do populismo, o Brexit, a eleição de Trump, a guerra comercial entre as duas economias mais importantes do mundo e a corrosão da ordem econômica mundial liberal. O ciclo de crédito de longo prazo chegou ao fim na desastrosa crise financeira de 2007-2008. Atualmente, a China, cujo ciclo de endividamento de longo prazo se acelerou após a crise, está alcançando os limites dos acúmulos de dívida, também.

Essas condições de longo prazo limitam significativamente qualquer otimismo que se possa sentir diante de uma desaceleração cíclica de curto prazo.

Uma forte implicação disso é que o espaço para uma reação à recessão será limitado por padrões históricos, principalmente no campo da política monetária. Se o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) tivesse de ter uma reação padrão a uma recessão significativa, suas taxas de curto prazo poderiam ter de ser de -2,5%. O Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (o BC do país) teriam de ir ainda mais além. Se o pior acontecer, o Fed e o BCE poderão ser obrigados a seguir o Banco do Japão na adoção de políticas ainda mais profundamente pouco convencionais. Embora o Banco do Povo da China disponha de mais espaço de manobra, reativar o surto de crescimento do crédito na China envolve riscos de mais longo prazo.

A transformação do ambiente mundial traz novos riscos, tanto negativos quanto positivos. O maior risco negativo é o de que seria impossível articular uma reação coordenada e eficiente a uma grave desaceleração da economia mundial. Um risco obviamente positivo deriva da possível inadministrabilidade dos últimos acúmulos de dívida privada e pública. Outro perigo é que um colapso da ordem política mundial cause grave desestabilização da economia por si só, talvez por meio de um colapso do comércio exterior, talvez em decorrência de outro acontecimento de ordem geopolítica.

O problema com o qual se preocupar, nesse caso, não é a situação do ciclo de curto prazo. É perfeitamente provável que haja uma desaceleração modesta e administrável, que não causará grandes estragos. A preocupação deve se centrar, em vez disso, no contexto em que essa desaceleração poderá ocorrer. É a instabilidade política e de política pública, associada ao esgotamento de alternativas seguras de expansão do crédito, que tornará a gestão de uma desaceleração de curto prazo, mesmo limitada e natural, potencialmente espinhosa.

Infelizmente, não existem mecanismos simples para reduzir essas fontes de fragilidade. Elas estão profundamente enraizadas e, em vista dos recentes acontecimentos políticos, tendem mais a piorar do que a melhorar. Se você quer mesmo se preocupar, deveria se preocupar com isso. (Tradução de Rachel Warszawski)

Valor Econômico

 

 

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