A interiorização da Covid-19 no Nordeste: temos infraestrutura de saúde?

A disseminação em ritmo acelerado do novo coronavírus no Brasil traz inúmeros desafios à população e à gestão pública. Diante à escassez de recursos humanos, físicos e materiais, o risco de colapso do Sistema de Saúde é iminente caso não seja controlada a velocidade da disseminação da doença. Frente a este cenário, a OMS (e diversas outras organizações e governos) tem recomendado o isolamento total da população como a única medida eficaz no momento para o combate ao Covid-19.

No Brasil, além das dificuldades políticas e econômicas, apresenta-se uma dificuldade adicional do Ministério da Saúde e estados em conseguir equipamentos de proteção individual e ventiladores/respiradores mecânicos, insumos de grande importância para o combate ao  novo coronavírus. Este cenário, somado às desigualdades regionais históricas no Brasil, trazem consigo grandes desafios para a superação da pandemia.

No contexto dessas desigualdades, a região Nordeste apresenta grandes desafios devido à vulnerabilidade não apenas de sua população, mas dos escassos serviços de infraestrutura de saúde disponíveis em boa parte dos municípios. Com uma população de mais de 57 milhões (IBGE, 2019) na região, encontramos cerca de 29% (16,8 milhões) de habitantes que vivem em municípios considerados extremamente pobres. Em relação à infraestrutura de saúde, a região possui em média apenas 1,3 médicos por mil habitantes. São apenas 74,4 mil médicos para os nove estados da região (cerca de 82% vinculados ao SUS). Embora esteja dentro dos parâmetros recomendados pela OMS, essa distribuição é extremamente desigual e favorece as Regiões Metropolitanas (RMs) em detrimento aos municípios do interior. Excluídas as RMs a média cai para 0,5 médico por mil habitantes.

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Em relação ao número de leitos de UTI, dados do Centro Brasileiros de Estudos em Saúde (CEBES) apontam no Brasil uma média de 15,6 leitos de UTI para cada 100.000 habitantes, sendo no SUS apenas 7,1 leitos (abaixo do recomendado que seriam 10 leitos por 100.000 habitantes). Apenas os estados da Bahia, Paraíba e Pernambuco estão acima da média nacional. Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES/DATASUS) para o ano de 2019 mostram que cerca de um terço dos municípios nordestinos (apenas 588) possuem respiradores/ventiladores, o que representa uma média de apenas 6,8 aparelhos por município. No caso das UTI’s adultas, a situação é ainda mais grave: apenas 5% dos municípios (94) possuem ao menos um (01) leito de UTI adulta. Uma média de apenas 3,3 leitos por municípios ou 62,3 leitos por município que dispõe do equipamento.

O mapa apresenta a distribuição espacial de alguns serviços de saúde, com foco na ausência dos principais equipamentos necessários para o tratamento dos casos graves da Covid-19. Nota-se uma concentração importante de municípios no interior do Piauí e da Paraíba sem a presença de médicos. No caso do Piauí a situação é ainda mais grave. Na Paraíba os municípios sem médicos são vizinhos a municípios que possuem médicos e leitos de UTI, mas no sul do Piauí (e na divisa com a região noroeste da Bahia) se observa um bolsão de municípios sem médicos (ou com poucos médicos), sem aparelhos respiradores/ventiladores e sem unidades de tratamento intensivo, razoavelmente próximas.

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Infraestrutura de saúde e casos confirmados da Covid-19. Fonte: CNES/Datasus; Ministério da Saúde.

Além dessas áreas, observa-se no interior do Rio Grande do Norte, no sul do Maranhão e em regiões dos estados da Bahia e Ceará, grandes extensões de área com municípios que não possuem respiradores e leitos de UTI adulta, sem falar que mesmo nas regiões em que existem, a situação já é insuficiente para atender a população destes respectivos municípios. Confirmando os achados do CEBES em que mostram que 30,5% da população unicamente dependente do SUS no Nordeste, 22,6% residem em regiões de saúde sem leitos de UTI.

O mapa ainda permite observar a distribuição espacial das ocorrências de infectados, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde (até o dia 31 de março de 2020). Até o presente momento, há relativa concentração dos casos nas capitais e Regiões Metropolitanas. Mas já há indícios de um processo de interiorização das contaminações com significativos testes positivos em municípios do interior nordestino. Nesse sentido, faz-se fundamental dedicar profunda atenção à região Nordeste, em especial aos municípios menores do interior.

Dada a grade mobilidade da população e as intensas relações sociais e econômicas que os municípios do interior nordestino guardam com as respectivas capitais, a disseminação das Covid-19 deverá afetar fortemente a infraestrutura no interior. Diferentemente de outras enfermidades e outros momentos, onde a transferência para as capitais é comum, dessa vez talvez não haja tempo hábil ou capacidade para trazer todos os pacientes graves para as capitais. Mais do que nunca, precisamos investir numa emergencial redução das desigualdades regionais.

Jarvis Campos – Demógrafo, professor do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais (DDCA) e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Karina Cardoso Meira – Epidemiologista, professora da Escola de Saúde e do Programa de Pós-Graduação em Demografia (PPGDem) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Confira essa e outras análises demográficas também no ONAS-Covid19 [Observatório do Nordeste para Análise Sociodemográfica da Covid-19] https://demografiaufrn.net/onas-covid19

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