
Lições dos emergentes asiáticos para o futuro do Brasil
Arthur Neo – 18/10/2026
Introdução e Contexto Histórico das Trajetórias de Desenvolvimento
A evolução econômica comparada entre o Brasil e as economias emergentes do Leste e Sudeste Asiático representa um dos episódios mais instrutivos da economia do desenvolvimento contemporânea. Entre os anos de 1940 e 1980, o Brasil figurou entre as economias de crescimento mais acelerado no cenário global, registrando uma taxa média de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) real de 7,0% ao ano. Esse avanço foi impulsionado pelo modelo de Industrialização por Substituição de Importações (ISI), que promoveu uma profunda transformação estrutural, convertendo uma sociedade predominantemente agrária em uma economia urbana e industrializada. Contudo, com o esgotamento desse modelo e o advento da crise da dívida externa na década de 1980, o dinamismo brasileiro sofreu uma desaceleração acentuada, reduzindo o crescimento médio anual do PIB para apenas 2,0% nas quatro décadas seguintes.
Em contrapartida, as economias emergentes da Ásia representadas inicialmente pelos Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong) e, posteriormente, expandidas para economias como Vietnã, China e Índia seguiram uma trajetória de rápida convergência de renda. Partindo de quadros severos de pobreza, fraca acumulação de capital e infraestrutura incipiente no período pós 2ª Guerra Mundial, essas nações transitaram de economias agrícolas descapitalizadas para polos mundiais de manufatura avançada e inovação tecnológica.
A divergência entre as duas regiões reside na orientação estratégica de suas políticas econômicas. Enquanto o Brasil manteve uma estrutura focada na proteção do mercado interno, caracterizada por barreiras tarifárias elevadas e um ecossistema produtivo fechado que desestimulou ganhos sustentados de produtividade, os emergentes asiáticos realizaram uma transição da substituição de importações para o modelo de Crescimento Liderado pelas Exportações (Export-Led Growth — ELG). Ao submeterem suas indústrias nacionais ao crivo da concorrência internacional, essas nações asiáticas garantiram um fluxo contínuo de absorção tecnológica e integração profunda nas Cadeias Globais de Valor (CGVs).
Análise Comparativa do Desempenho Econômico e Estrutural
A avaliação das disparidades de desempenho entre a economia brasileira e os emergentes asiáticos requer o exame detalhado das variáveis macroeconômicas fundamentais que determinam o crescimento potencial de longo prazo: a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF)*, a complexidade da matriz exportadora, o grau de inovação corporativa e o desenvolvimento do capital humano.
*FBCF é o indicador macroeconômico que mede o investimento produtivo de uma economia em ativos fixos durante um determinado período
Formação Bruta de Capital Fixo e Taxa de Poupança
A taxa de investimento, mensurada pela razão entre a FBCF e o PIB, permanece como um dos gargalos mais críticos da economia brasileira. O Brasil encontra-se preso a uma estagnação estrutural, operando historicamente em um patamar médio de 16% a 18% do PIB. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam uma taxa de investimento de 16,8% do PIB, enquanto projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam para uma média de 16,4%. Esse nível de investimento é insuficiente para repor o desgaste do capital instalado e expandir a infraestrutura nacional, limitando o crescimento do PIB potencial a taxas entre 2,0% e 3,0% ao ano.
Por outro lado, as economias emergentes da Ásia promoveram um choque contínuo de acumulação de capital. Na década de 1980, os países asiáticos apresentavam taxas médias de investimento de 29,9% do PIB, elevando esse indicador para patamares superiores a 35% e, em certos períodos, acima de 40% do PIB. Essa sustentada formação de capital foi financiada por elevadas taxas de poupança doméstica e por um ambiente de negócios estruturado para atratividade de Investimento Direto Externo (IDE) voltado à exportação. A média histórica mundial de investimento situa-se em 25,1% do PIB, o que evidencia o forte distanciamento do Brasil em relação aos padrões internacionais e aos seus pares asiáticos.
Complexidade Econômica e Desindustrialização Regressiva
O Índice de Complexidade Econômica (ECI), desenvolvido por pesquisadores do Harvard Growth Lab, afere a diversidade e a sofisticação do conhecimento produtivo embutido na pauta exportadora de um país. A complexidade econômica guarda uma correlação direta e positiva com o crescimento do PIB per capita e com a redução da desigualdade de renda.
A trajetória brasileira ao longo das últimas décadas é marcada por um processo de especialização regressiva. A expansão das exportações agrícolas e minerais, intensificada pelos ciclos de alta das commodities, resultou na perda de espaço dos produtos manufaturados de maior intensidade tecnológica. A participação dos bens de alta e média-alta tecnologia no total exportado pelo Brasil recuou de 21,6% para 14,5% em um intervalo de dez anos, provocando o deslizamento contínuo do país no ranking global do ECI.
Fonte: https://atlas.hks.harvard.edu/rankings/
Em sentido oposto, os países emergentes e desenvolvidos da Ásia consolidaram posições de liderança global em complexidade econômica. Singapura (ECI de 2,52), Taiwan (ECI de 2,24) e Coreia do Sul (ECI de 2,23) ocupam o topo do ranking mundial, sustentados por pautas exportadoras altamente densas em semicondutores, eletrônicos, maquinários de precisão e biotecnologia. Mesmo emergentes de industrialização mais recente, como o Vietnã (ECI de 0,35), têm demonstrado uma escalada consistente na cadeia de valor, migrando de produtos primários e têxteis para componentes eletrônicos e equipamentos montados de alta tecnologia.
Capital Humano, Inovação e Ativos Intangíveis
A sustentabilidade do modelo de crescimento asiático assenta-se em um sistema educacional rigoroso, estruturado para atender às demandas da economia do conhecimento e focado nas disciplinas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). Os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) mostram que mais de 85% dos estudantes nas economias asiáticas de melhor desempenho como Singapura, Macau, Taiwan, Japão e Coreia do Sul atingem os níveis mais elevados de proficiência em Matemática e Ciências. Embora o Brasil tenha registrado avanços graduais de proficiência nas últimas duas décadas, o desempenho médio dos estudantes brasileiros permanece significativamente abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), configurando um gargalo estrutural para a formação de mão de obra qualificada.
No que tange aos investimentos em inovação, observa-se no Brasil um movimento de expansão do investimento em ativos intangíveis* que engloba P&D, softwares, propriedade industrial e capital organizacional. Entre 2013 e 2023, o investimento intangível no Brasil cresceu 2,8% ao ano em termos reais, contrastando com o recuo de 1,5% ao ano do investimento tangível. O setor de intangíveis não capturado pelas contas nacionais somou R$ 546,5 bilhões em 2023, liderado por produtos financeiros, softwares e inteligência de marcas. Contudo, o ritmo de expansão do investimento intangível brasileiro é moderado quando comparado a pares emergentes asiáticos como a Índia, que registrou crescimento de 7,9% ao ano entre 2022 e 2023. Além disso, o gasto público brasileiro em P&D, de aproximadamente 0,65% do PIB, alinha-se à média da OCDE, mas padece de baixa integração com o setor produtivo e pouca conversão em patentes comerciais.
*Ativos intangíveis refere-se à capacidade que um recurso sem substância física (incorpóreo) tem de gerar benefícios econômicos futuros, agregar valor de mercado e garantir vantagem competitiva
| Indicador Econômico e Estrutural | Brasil | Coreia do Sul e Taiwan | Vietnã |
| Taxa Média de Investimento (FBCF / PIB) | 16,0% a 18,0% | 30,0% a 35,0% | 30,0% a 33,0% |
| Índice de Complexidade Econômica (ECI) | Em declínio relativo (Intermediário) | Muito Elevado (2,23 a 2,24) | Em ascensão (0,35) |
| Modelo de Inserção Internacional | Commodities e Substituição Defensiva | Liderança em CGVs de Alta Tecnologia | Plataforma de Exportação Manufaturada |
| Desempenho Educacional (PISA – STEM) | Abaixo da média da OCDE | Liderança Mundial (Top 10) | Acima da Média para a Renda |
| Investimento em Ativos Intangíveis | Crescimento de 2,8% a.a. (Foco em Marcas/Software) | Superior a 4,0% do PIB (Intensivo em P&D) | Em forte expansão via IDE |
Fonte: Instituto NEO
O Modelo Asiático de Superação da Pobreza e Inserção nas Cadeias Globais de Valor
A transformação socioeconômica do Leste e Sudeste Asiático, que resultou na erradicação maciça da extrema pobreza e na ascensão dessas nações ao centro do comércio global, decorreu da aplicação de uma estratégia de desenvolvimento em etapas encadeadas. A literatura econômica frequentemente associa esse movimento ao modelo dos “Gansos Voadores”, no qual os países avançam gradualmente na hierarquia industrial à medida que acumulam capital e tecnologia.
O ponto de partida desse processo ocorreu no setor primário, por meio de amplas reformas agrárias implementadas em nações como a Coreia do Sul e Taiwan no pós-guerra. A redistribuição de terras e a introdução de técnicas modernas de cultivo elevaram a produtividade no campo, gerando o excedente alimentício e financeiro necessário para sustentar o início da urbanização e liberando mão de obra para os centros fabris emergentes. Em paralelo, esses governos realizaram investimentos maciços no ensino primário e secundário universais, assegurando a alfabetização plena e a capacitação técnica básica de uma força de trabalho altamente disciplinada para o ambiente industrial.
Na fase seguinte, as economias asiáticas adotaram a estratégia de industrialização voltada para a exportação, direcionando seus recursos para manufaturas leves e intensivas em trabalho, tais como o setor têxtil, de calçados e de montagens simples. Essa inserção inicial permitiu absorver o excedente populacional vindo do campo e gerar divisas internacionais em moeda forte. O diferencial determinante do modelo asiático em relação ao modelo latino-americano residiu no tratamento dispensado às empresas privadas: enquanto o protecionismo no Brasil e na América Latina perenizava subsídios e reservas de mercado para indústrias voltadas ao consumo interno, os estados desenvolvimentistas asiáticos condicionavam a concessão de crédito favorecido, isenções fiscais e proteção tarifária temporária ao cumprimento rigoroso de metas de exportação (export performance discipline). As empresas incapazes de competir no mercado internacional perdiam o apoio estatal, o que impulsionou uma busca incessante por eficiência produtiva e atualização tecnológica.
A escalada final nas Cadeias Globais de Valor (CGV) ocorreu pela transição da montagem de bens simples para a produção intensiva em capital e conhecimento. Em vez de tentarem erguer cadeias de suprimentos inteiramente nacionais e isoladas, os emergentes asiáticos integraram-se funcionalmente às CGVs, importando insumos intermediários e bens de capital avançados com baixas tarifas para reexportar componentes sofisticados e produtos finais de elevada complexidade. Esse processo de aprendizado tecnológico cumulativo permitiu que empresas locais do Leste Asiático passassem da condição de fornecedoras subcontratadas para a de proprietárias de marcas globais e líderes em setores como semicondutores, eletrônicos de precisão, petroquímica e construção naval. A criação contínua de empregos industriais de alta produtividade e renda elevou os salários reais, proporcionando uma mobilidade social sem precedentes e superando a armadilha da renda média.
A Resposta Brasileira Contemporânea: Nova Indústria Brasil e a Fronteira do Powershoring
Diante do diagnóstico de desindustrialização precoce evidenciado pela queda da participação da indústria de transformação no PIB brasileiro de cerca de 30% na década de 1980 para aproximadamente 15,1% nos anos recentes, o governo brasileiro formulou o Programa Nova Indústria Brasil (NIB).
A Arquitetura e as Missões da Nova Indústria Brasil
Lançada com o objetivo de reindustrializar o país sobre bases sustentáveis e inovadoras até o ano de 2033, a NIB encontra-se estruturada em torno de seis missões estratégicas orientadas para resolver desafios socioeconômicos e tecnológicos estruturais. O programa prevê a mobilização de R$ 300 bilhões em recursos de financiamento até 2026, viabilizados por meio de órgãos estatais como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).
| Missão da NIB | Foco Estratégico e Metas de Desenvolvimento | Instrumentos de Execução |
| Missão 1: Agroindústria | Cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais para segurança alimentar e energética. | Crédito do BNDES, ampliação de máquinas agrícolas e parcerias internacionais. |
| Missão 2: Complexo da Saúde | Complexo econômico-industrial da saúde resiliente para reduzir vulnerabilidades do SUS. | Compras públicas estatais, margens de preferência e incentivos a fármacos. |
| Missão 3: Infraestrutura e Cidade | Infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis para integração urbana. | Financiamento habitacional, debêntures incentivadas e mobilidade verde. |
| Missão 4: Transformação Digital | Transformação digital da indústria nacional para ampliação da produtividade. | Programa Brasil Mais Produtivo, apoio a startups e automação fabril. |
| Missão 5: Bioeconomia e Transição | Descarbonização, bioeconomia e segurança energética para garantir recursos futuros. | Subvenção a combustíveis renováveis, Mover e Marco do Hidrogênio. |
| Missão 6: Defesa e Soberania | Tecnologias de interesse estratégico para a soberania e a defesa nacional. | Encomendas tecnológicas, linhas especializadas e desenvolvimento produtivo. |
Fonte: Instituto NEO
Avaliação Crítica da NIB frente ao Paradigma Asiático
Apesar de representar um esforço de articulação entre o Estado e a iniciativa privada, a análise da NIB à luz das experiências dos emergentes asiáticos revela fragilidades metodológicas e estruturais. O primeiro ponto de divergência reside na ausência de mecanismos claros de reciprocidade baseados no desempenho exportador. Enquanto os Tigres Asiáticos condicionavam o apoio público ao ganho de fatias no mercado internacional, a NIB concentra seus estímulos na concessão de crédito favorecido e no uso das compras públicas domésticas, sem impor às empresas beneficiadas a obrigação de atingir padrões globais de competitividade.
Um segundo obstáculo consiste no elevado “Custo Brasil”, estimado em R$ 1,7 trilhão ao ano (equivalente a 19,5% do PIB), que decorre de distorções tributárias, custos logísticos, crédito privado escasso e incertezas jurídicas. A concessão de subsídios financeiros pontuais via política industrial tem capacidade limitada para neutralizar as desvantagens sistêmicas de custo que afetam o setor produtivo nacional. Além disso, a NIB abrange uma ampla gama de setores industriais, correndo o risco de dispersar recursos públicos em vez de concentrá-los em áreas de maior complexidade e impacto multiplicador, como fizeram as economias asiáticas.
A Oportunidade Estrutural do Powershoring
Em um cenário global de reorganização das cadeias produtivas motivado por tensões geopolíticas, busca por resiliência de suprimentos e urgência da transição climática, o Brasil apresenta uma vantagem competitiva singular conhecida como powershoring ou greenshoring. O powershoring consiste na relocalização de plantas industriais intensivas em energia para países que dispõem de matrizes energéticas limpas, renováveis, abundantes e de baixo custo.
Enquanto grande parte das economias emergentes da Ásia permanece altamente dependente do carvão mineral e de combustíveis fósseis importados para sustentar seus parques fabris, a matriz elétrica brasileira é majoritariamente renovável, apoiada nas fontes hídrica, eólica, solar e de biomassa. Essa condição permite ao Brasil atrair segmentos industriais globais focados na descarbonização do seu ciclo de vida produtivo. Setores como a siderurgia de baixa emissão (aço verde), o processamento sustentável de minerais críticos para a transição energética, a fabricação de fertilizantes verdes e o desenvolvimento da cadeia do hidrogênio de baixa emissão representam janelas de oportunidade para a reindustrialização do país e sua inserção qualificada nas CGVs. Destacando o Nordeste brasileiro como região de maior potencial de atração.
Diretrizes e Caminhos Estratégicos para o Crescimento Sustentável do Brasil
Para superar o padrão histórico de baixo crescimento e aproximar sua dinâmica produtiva do desempenho dos emergentes asiáticos, o Brasil necessita alinhar suas reformas macro e microeconômicas aos princípios de eficiência, acúmulo de capital e competitividade externa.
Elevação da Taxa de Investimento e Financiamento do Longo Prazo
A aceleração do crescimento potencial brasileiro exige a elevação sustentada da taxa de FBCF dos atuais 16,8% para patamares entre 22% e 25% do PIB. Essa expansão requer o fortalecimento da consolidação fiscal para reduzir o prêmio de risco soberano e a taxa de juros real de longo prazo, criando um ambiente favorável ao investimento privado. É indispensável aprofundar os marcos regulatórios da infraestrutura e fortalecer a autonomia das agências reguladoras, assegurando estabilidade jurídica e previsibilidade contratual para atrair concessionários e fundos internacionais de investimento. Ademais, o desenvolvimento de mercado de capitais para títulos de dívida privada de longo prazo e debêntures de infraestrutura reduzirá a dependência exclusiva do financiamento estatal.
Reorientação da Política Industrial com Foco em Reciprocidade e Competitividade
A política industrial brasileira deve incorporar as lições da experiência asiática, substituindo o protecionismo passivo pela aplicação de condicionalidades de desempenho. Os incentivos Fiscais, subvenções de P&D e financiamentos concedidos no âmbito da NIB devem ser estritamente vinculados a metas mensuráveis de incremento da produtividade do trabalho, aumento das exportações e inserção em novos mercados globais. Os programas públicos devem prever prazos rígidos de encerramento dos estímulos (sunset clauses), garantindo que apenas empresas capazes de atingir competitividade internacional continuem a receber suporte estatal, eliminando a perpetuação de subsídios a setores ineficientes.
Modernização do Capital Humano e Alinhamento STEM
O salto de produtividade e a ascensão na escala de complexidade econômica exigem a reformulação do sistema educacional brasileiro, orientando-o para as demandas da economia do conhecimento. O país deve concentrar esforços na melhoria da proficiência do ensino fundamental e médio nas disciplinas de Matemática, Ciências e Tecnologias Digitais, buscando reverter as defasagens reveladas nas avaliações do PISA. Faz-se necessária a expansão da oferta de ensino técnico e profissionalizante integrado ao ensino médio, em articulação direta com o setor produtivo e centros de formação tecnológica. Paralelamente, o Estado deve criar estímulos fiscais para incentivar o financiamento privado de P&D corporativo e promover a integração entre universidades, institutos de pesquisa e empresas industriais.
Integração Comercial Aberta e Consolidação do Powershoring
A superação do isolamento comercial brasileiro requer a transição para uma estratégia de inserção internacional ativa. O Brasil deve promover a redução seletiva e programada de tarifas de importação sobre bens de capital, máquinas avançadas e componentes tecnológicos, permitindo que as empresas domésticas se modernizem a custos competitivos. O país precisa acelerar a ratificação e implementação de acordos de livre comércio estratégicos, como os tratados Mercosul-União Europeia e Mercosul-EFTA, ampliando o acesso dos produtos nacionais a mercados de alto poder aquisitivo. Por fim, o governo deve institucionalizar a agenda de powershoring, estruturando distritos industriais verdes munidos de energia limpa garantida, logística eficiente e regimes tributários simplificados para atrair multinacionais em busca de descarbonização de suas cadeias de valor.
Conclusão
O estudo comparativo entre a economia brasileira e os emergentes da Ásia evidencia que o desenvolvimento econômico sustentado e a erradicação da pobreza não resultam da mera dotação de recursos naturais, mas do alinhamento entre acúmulo de capital fixo, elevação da qualidade do capital humano e inserção disciplinada no comércio internacional. O Brasil encerrou o século XX com uma infraestrutura industrial expressiva, mas permaneceu preso a baixas taxas de investimento, estagnação da produtividade e reduzida complexidade exportadora.
A superação dessa armadilha exige a reformulação da estratégia nacional de desenvolvimento. A resposta representada pela Nova Indústria Brasil somente alcançará êxito duradouro se incorporar os princípios asiáticos de reciprocidade, disciplina de exportação e foco na produtividade. Ao associar a reforma do seu ambiente de negócios e o fortalecimento do ensino técnico às oportunidades ímpares do powershoring e da transição energética, o Brasil construirá as bases necessárias para elevar sua taxa de investimento, escalar as cadeias globais de valor e atingir uma trajetória duradoura de convergência de renda e crescimento econômico.
Texto:
Arthur Néo
Economista – Vice-presidente do CORECON/RN
Prof. da Universidade Católica do RN
Diretor do Instituto NEO – Negócios, Educação e Operações Financeiras.






