Consumo, mercado de trabalho, datas comemorativas e expectativa dos lojistas
Arthur Neo – 27/10/2026
A capacidade de consumo da população do Rio Grande do Norte no quarto trimestre de 2026 é condicionada pelo nível de endividamento e pela taxa de inadimplência das famílias. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em parceria com o Instituto Fecomércio RN, a capital potiguar registrou 82,8% de famílias endividadas em setembro de 2026.
Embora esse valor posicione Natal com o segundo menor percentual de endividamento bruto entre as capitais da Região Nordeste situando-se abaixo da média regional de 83,5%, porém acima da média nacional de 81,7%, a análise detalhada dos indicadores revela fragilidades na qualidade dessa dívida. Natal lidera o ranking de inadimplência no Nordeste, com 43,5% dos lares apresentando contas ou dívidas em atraso.
A microestrutura do endividamento em Natal aponta que o cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, citado por 97,7% dos lares endividados, seguido pelos carnês de lojas (13,3%) e pelo crédito consignado (13,3%).
O comprometimento médio da renda com dívidas alcança 29,5%, com um tempo médio de retenção dos compromissos financeiros fixado em 7,2 meses.
A disparidade entre o volume de endividamento (82,8%) e a taxa de contas em atraso (43,5%) indica que, embora o endividamento geral tenha apresentado retração anual impulsionada por renegociações de crédito e programas de regularização, a restrição de liquidez atinge de forma aguda as famílias de menor renda. Com o encargo dos juros do cartão de crédito imposto pela Selic em 13,25%, a renda disponível para compras de fim de ano encontra-se limitada.
Impactos e Tendências para o Varejo de Fim de Ano: Black Friday e Natal
O desempenho do setor varejista potiguar no quarto trimestre de 2026 depende da absorção da demanda retida e da resposta do consumidor às datas comemorativas estipuladas no calendário comercial. O resultado do Dia das Crianças serviu como indicador de atividade para o varejo regional. O comércio e o setor de serviços do Rio Grande do Norte movimentaram R$ 322,87 milhões na data, registrando um crescimento nominal de 9,2% em relação ao ano anterior.
A análise desagregada dos dados do Instituto Fecomércio RN demonstra que cerca de 85% do crescimento real das vendas no Dia das Crianças decorreu do aumento da intenção de compra e do volume de itens adquiridos, e não da elevação do ticket médio. Descontada a inflação, a variação do ticket médio em Natal e Mossoró situou-se próxima a 0,7%, ao passo que a quantidade média de presentes por consumidor atingiu os recordes históricos de 2,14 unidades em Natal e 2,30 unidades em Mossoró.
Esse padrão de consumo direciona as estratégias para a Black Friday (novembro) e o Natal (dezembro). A precificação torna-se a variável central para a conversão de vendas: 58,8% dos consumidores em Natal, 63,0% em Mossoró e 66,6% em Parnamirim apontam promoções e descontos como o principal critério para a escolha de compras. Adicionalmente, pesquisas de mercado indicam que 84% dos consumidores realizam checagem prévia de preços para verificar a veracidade dos descontos oferecidos.
Para o varejo físico de rua, como nos polos comerciais do Alecrim e da Cidade Alta em Natal, iniciativas institucionais buscam capturar o fluxo de consumidores no encerramento do ano. Projetos como o “Brilha Natal”, promovido pela Fecomércio RN que oferece transporte gratuito entre centros de compras, e o “Natal de Prêmios”, organizado pela CDL Natal, pretendem mitigar a concorrência do e-commerce e estimular a circulação de capital na economia local.
A diferenciação entre os momentos de consumo de novembro e dezembro exige inteligência de estoque por parte dos empresários. A Black Friday atua precipuamente como um evento de volume e liquidação de estoque de giro, ao passo que o Natal concentra as compras de maior valor agregado, focadas em presentes e celebrações familiares, sustentando margens de lucro operacionais mais elevadas.
Riscos de Crédito, Inadimplência Empresarial e Estruturas de Apoio às MPEs (Sebrae RN)
A manutenção das taxas de juros em patamares elevados repercute na liquidez e na sustentabilidade financeira das micro e pequenas empresas (MPEs) e das empresas de pequeno porte (EPPs). O levantamento nacional da Serasa Experian aponta que a inadimplência das empresas atingiu o recorde de 9,3 milhões de CNPJs com dívidas negativadas em agosto de 2026, representando um crescimento de 14,3% em comparação ao mesmo período de 2025.
O segmento de micro e pequenas empresas concentra a maior fatia do volume inadimplente, respondendo por 8,8 milhões de empresas com contas em atraso. As dívidas estão concentradas no setor de serviços (31,7%), seguidas por compromissos com bancos e cartões de crédito (19,7%) e cooperativas de crédito (8,5%). No Rio Grande do Norte, essa fragilidade afeta diretamente o capital de giro necessário para a recomposição de estoques visando às vendas do quarto trimestre.
Diante desse cenário de restrição de liquidez, foram implementadas medidas extraordinárias de regularização passiva e estímulo ao crédito. A promulgação da Lei Complementar nº 186/2026 instituiu o programa Prospera MEI, prevendo a remissão de débitos previdenciários, multas e juros para mais de 3,6 milhões de microempreendedores individuais no país, dos quais cerca de 160 mil estão localizados no Rio Grande do Norte. O programa perdoa débitos médios estimados em R$ 3,4 mil por empreendedor, além de estabelecer o aumento gradual do teto de faturamento anual do MEI dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.
Paralelamente, instrumentos como o Desenrola Pequenos Negócios e o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (FAMPE), gerido pelo Sebrae, atuam para mitigar a escassez de garantias e permitir o refinanciamento do passivo de curto prazo das empresas de menor porte. O FAMPE assume papel relevante no quarto trimestre ao conceder aval complementar em operações de financiamento de capital de giro, permitindo que MPEs abasteçam suas operações para atender à demanda de fim de ano.
Diretrizes Estratégicas e Inteligência de Mercado para Micro e Pequenas Empresas
Considerando os indicadores macroeconômicos e particularidades da economia local, a tomada de decisão financeira e comercial pelas micro e pequenas empresas deve ser estruturada a partir do cenário apresentado, buscando rigor aprimorar a gestão eficiente da liquidez.
A gestão do capital de giro exige atenção rigorosa ao Ciclo de Conversão de Caixa (CCC), definido como a soma do Prazo Médio de Estocagem (PME) com o Prazo Médio de Recebimento (PMR), deduzido do Prazo Médio de Pagamento (PMP).
Com a Selic fixada em 13,25% ao ano, o custo financeiro do carregamento de estoques torna-se extremamente elevado. O objetivo primordial das empresas no quarto trimestre deve ser a minimização do CCC, evitando o acúmulo especulativo de mercadorias e priorizando itens de alta rotatividade. A renegociação de prazos de pagamento junto aos fornecedores sem a incidência de juros compostos constitui o mecanismo mais eficaz para preservar o fluxo de caixa operacional.
No plano das vendas, a diferenciação entre o planejamento da Black Friday e o do Natal representa um divisor de águas para a rentabilidade dos pequenos negócios. A promoção de novembro deve servir estritamente como canal para a liquidação de estoques parados e geração de caixa rápido, enquanto o sortimento de mercadorias voltado ao presenteável de Natal deve ser preservado para comercialização com margens operacionais cheias em dezembro. Como 84% dos consumidores aferem a veracidade dos descontos antes de efetivar compras, campanhas promocionais pautadas na transparência e no preço de referência honesto garantem maior conversão e reduzem o custo de aquisição de clientes.
Em relação às modalidades de pagamento, a predominância do cartão de crédito no endividamento das famílias potiguares (97,7%) contrasta com a necessidade de liquidez imediata das MPEs. A concessão de incentivos para pagamentos via Pix que passa a contar com modalidades como Pix parcelado e por aproximação permite ao varejista acelerar o recebimento, eliminar taxas de desconto operadas por credenciadoras e ofertar margens promocionais atraentes sem comprometer o resultado líquido.
Por fim, a reorganização da estrutura do passivo das microempresas deve aproveitar as janelas regulatórias abertas pela Lei Complementar nº 186/2026 (Prospera MEI) e pelo programa Desenrola Pequenos Negócios, desonerando o balanço patrimonial de dívidas passadas. Para a captação de novos recursos de giro, a utilização das garantias complementares do FAMPE/Sebrae reduz a exigência de ativos reais junto às instituições financeiras, viabilizando o financiamento das operações de fim de ano sob condições de risco adequadas.
Conclusões
O cenário macroeconômico do quarto trimestre de 2026 impõe um ambiente operacional complexo para os negócios no Rio Grande do Norte. A combinação de inflação projetada acima do centro da meta (5,19%), juros básicos mantidos em 13,25% ao ano e aperto no crédito estabelece limites estruturais para a expansão acelerada do consumo.
Na dimensão regional, os indicadores demonstram que, embora a intenção de consumo e a disposição do consumidor potiguar para ir às compras permaneçam elevadas conforme evidenciado pelo aumento no volume de itens adquiridos em datas anteriores, a elevada taxa de inadimplência das famílias em Natal (43,5%) e o custo do endividamento no cartão de crédito exigem que o setor produtivo atue com extrema precisão de preço, oferta e gestão financeira.
Para as micro e pequenas empresas, a inteligência de mercado deixa de ser um diferencial e passa a ser requisito de sobrevivência. O aproveitamento das oportunidades do encerramento do ano depende da capacidade do empreendedor de alinhar o planejamento de estoque às demandas reais do consumidor local, utilizar eficientemente as ferramentas de regularização de crédito e preservação do caixa, transformando as restrições da conjuntura em resultados sustentáveis no balanço de encerramento de 2026.
Texto: Arthur Néo
Economista
Vice presidente do CORECON/RN
Prof. da Universidade Católica do RN
Diretor do Instituto NEO







